Desprezar potencial eleitoral de Bolsonaro é ignorância ou torcida contra

A fotografia captada pelas últimas pesquisas de intenção de voto (XP/Ipespe e Quaest/Genial) revela que Jair Bolsonaro (PL) tem recuperado terreno na corrida presidencial. Sem Sergio Moro, que desistiu da candidatura ao Planalto para se filiar ao União Brasil, eleitores conservadores voltaram a admitir preferência pelo atual chefe do Executivo. Além disso, o temor pelo avanço do ex-presidente Lula, pré-candidato pelo PT, devolveu a Bolsonaro um potencial real de reeleição.

Na pesquisa da XP, é interessante observar o voto por segmento do eleitorado. Entre os evangélicos, por exemplo, Bolsonaro recuperou parte da preferência e agora supera Lula em pontos percentuais. Segundo a sondagem, o capitão ostenta 40% das intenções de voto entre esse grupo, contra 33% do petista.

Lembrando que o levantamento nem sequer captou o impacto das declarações de Lula sobre o aborto — discussão absolutamente rechaçada pelos evangélicos.

Quem acompanha política de perto considera outros aspectos relevantes para essa recuperação eleitoral, como por exemplo a distribuição de recursos do Executivo com vistas à reeleição — prática que, justiça seja feita, não foi inaugurada por Bolsonaro.

De olho em outubro, Bolsonaro turbinou o auxílio emergencial substituindo o Bolsa Família pelo Auxílio Brasil. Na prática, um programa social para chamar de seu e pontos conquistados em um eleitorado tradicionalmente petista.

Também partiu do Executivo uma maior distribuição de recursos para os prefeitos, pilar importante para a formação de bases regionais. Isso sem contar a liberação de saques do FGTS e a antecipação do 13º de aposentados e pensionistas do INSS, como parte de um pacote de bondades anunciado pelo presidente.

Nas redes sociais, o professor Bruno Carazza, autor de “Dinheiro, Eleições e Poder”, observou: “Além de atrair seu eleitorado tradicional, Bolsonaro está se valendo fortemente das armas que todo político usa para tentar a reeleição, com o uso populista do orçamento público para se fortalecer em ano eleitoral.  É o caso, por exemplo, do Auxílio Brasil, que já rende frutos”.

É sob esta perspectiva que acendeu o alerta no entorno do ex-presidente Lula. E também entre os partidos da chamada “terceira via”, que agora falam em indicar um único nome para representar PSDB, MDB, União Brasil e Cidadania. Se será possível furar a polarização Lula-Bolsonaro, aí são outros quinhentos.

O fato é que Bolsonaro mostrou que está vivo (e bem vivo) no páreo e desprezá-lo como força política é ingenuidade — o que não é lá muito recomendado em política — ou mesmo um olhar contaminado pela torcida contra.

SAÍDA DE MORO

Ao Estado de São Paulo, o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda afirmou que o grande beneficiado pela saída de Moro é Bolsonaro. Para ele, o resultado da distribuição de votos consolida Ciro Gomes na terceira posição, mas a quantidade de eleitores que apoiariam outros nomes é muito pequena comparada ao ganho indireto do presidente.

“Saiu um competidor do eleitorado centro-direita, que é original do Bolsonaro, e sobretudo saiu alguém que ia empunhar a bandeira da Lava Jato contra ele na campanha eleitoral”, disse.